5 mitos sobre o cérebro

07-09-2021

A neuroeducação vai ganhando força todos os dias, por levar as descobertas da neurociência até à sala de aula. No entanto, há muitas ideias acerca do funcionamento do cérebro que não correspondem inteiramente à verdade -são designadas de neuromitos e resultam, maioritariamente, da distorção de factos científicos. O neurocientista Paul Howard-Jones conduziu um inquérito a professores do Reino Unido, Países Baixos, Turquia, Grécia e China cujas conclusões, publicadas na revista Nature Review, em 2014, referiam a existência de vários neuromitos. Aqui ficam alguns:


1 - Só usamos 10% do cérebro. 

O cérebro representa 2% do nosso peso e consome 20% da nossa energia. Seria um erro evolutivo sem precedentes desenvolver um órgão tão ineficiente, se apenas utilizasse 10% das suas potencialidades.
Este é considerado o maior de todos os mitos. 50% dos professores inquiridos acreditavam que era apenas esta a percentagem de cérebro que o ser humano teria capacidade para utilizar. A origem desta crença pode residir numa afirmação de William James, considerado o pai da psicologia na América: "a maioria das pessoas só aproveita uma pequena parte do seu potencial intelectual".
Outra possibilidade pode decorrer da realização, há mais de 50 anos, de um procedimento de estimulação do cérebro por elétrodos, através do qual se observou que em apenas 10% do córtex se verificaram contrações musculares visíveis. E, por esta razão, alguns investigadores concluíram que os restantes 90% não estavam envolvidos em determinada função cognitiva. Só mais recentemente, com recurso a neuroimagem, foi possível constatar que esta informação não era exata.
Marcus Raichle, neurocientista da Universidade de Washington, foi um dos primeiros cientistas a sugerir que, mesmo em repouso, o cérebro está a trabalhar em plena capacidade. Desde então, a maioria dos neurocientistas aceitaram que o cérebro tem uma rede sofisticada chamada "modo padrão" de áreas cerebrais que permanecem ativas mesmo quando em repouso.


2 – O cérebro é multitask 

Apesar de regular todas as nossas funções vitais, como o ritmo cardíaco, por exemplo, sem que nos demos conta e, ainda assim, consiga fazer outras tarefas que transformamos em "automáticas", como lavar os dentes, o cérebro não é multitask!Quando é necessário prestar atenção de forma seletiva não pode levar a cabo outras tarefas que envolvam as áreas cerebrais mais desenvolvidas. Responder a uma mensagem escrita e ouvir a apresentação oral de um trabalho, por exemplo, não são tarefas que se consigam realizar em simultâneo.O que acontece é que o cérebro alterna entre ambas as atividades. No entanto, a mudança de atenção que o cérebro faz ao trocar de uma atividade para outra implica um grande esforço e faz perder informação presente na memória de trabalho.Na verdade, somos capazes de fazer as duas tarefas, mas nenhuma delas de forma eficaz: a sms poderia conter erros ou durante o tempo utilizado a escrever a sms não teria sido possível ouvir a apresentação do trabalho.

 
3 – Ouvir Mozart desenvolve a inteligência

Nos anos 90 O otorrino francês Alfred Tomatis publicou o livro "Porquoi Mozart", onde atribuía à música de Mozart efeitos terapêuticos para o cérebro, promovendo o seu desenvolvimento. Esta ideia veio depois a ser popularizada pelo musicólogo americano Don Campbell no livro "The Mozart Effect", que conferiu à música do compositor propriedades capazes de curar o corpo, fortalecer a mente, libertar o espírito criativo e até exercer algum poder sob as funções executivas que intervêm nas aprendizagens. No entanto, as investigações a esta teoria acabaram por concluir que o chamado "Efeito Mozart" deriva da ativação de áreas cerebrais originada pelos efeitos entusiasmantes de algumas obras musicais. A música tem efeitos positivos, portanto, pode dizer-se que toda a música desenvolve a inteligência, não apenas ouvir, também aprender.


4 - Hemisfério esquerdo versus hemisfério direito

Todos já ouvimos dizer que determinadas pessoas utilizam mais o hemisfério direito e outras o esquerdo. As criativas e mais dotadas para as artes utilizam maioritariamente o lado direito e as lógicas e analíticas, o esquerdo. Na verdade, estudos efetuados com recurso a ressonância magnética mostram que os hemisférios trabalham em simultâneo e em coordenação. Se reparamos no exemplo da fala, é processada no hemisfério esquerdo, mas é no direito que está a entoação ou ênfase, fatores que ocorrem em simultâneo quando falamos.


5 – Se as aprendizagens não ocorrerem em determinada idade, já não ocorrem

Este mito deriva do facto de a maior parte das aprendizagens ocorrerem entre os 0 e os 3 anos.
Contudo, o cérebro humano continua a ter plasticidade ao longo de toda a vida, pois a estrutura e organização dos neurónios podem mudar de acordo com a influência do meio ambiente, transformando-se para sobreviver.

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