Jogar desenvolve competências, a brincar!

06-07-2020

Jogar é fundamental para a saúde e desenvolvimento das crianças. Ensina a ter paciência, a respeitar normas, sentir empatia, resolver problemas, gerir frustrações. Mas jogar está longe de ser um assunto só de crianças. 

A neurociência já mostrou que os estímulos cerebrais dos jogos de tabuleiro podem retardar o aparecimento de doenças como o Alzheimer. Tudo acontece ao nível da função executiva do cérebro. Ao estimular o autocontrole ajuda as crianças a permanecerem atentas, agir de forma menos impulsiva e manter a concentração nas suas tarefas. Por outro lado, potencia a memória de trabalho, relacionada com a capacidade de reter informações e vinculá-las a ideias, importante para o cálculo mental e definição de prioridades.

Finalmente, beneficia a flexibilidade cognitiva, utilizando a imaginação para resolver problemas.

Jogar em família é uma experiência fortalecedora da relação entre filhos e pais e altamente benéfica para a função executiva. Ao mesmo tempo, os filhos de pais que praticam uma parentalidade consciente tendem a ter melhores habilidades executivas. 

Um nível mais elevado de funcionamento executivo está relacionado com uma maior competência nos domínios social, emocional e escolar, traduzindo-se em sucesso na aprendizagem precoce de leitura e matemática. 

Por outro lado, um débil funcionamento executivo é uma das características de vários distúrbios, nomeadamente problemas comportamentais, défice de atenção e hiperatividade, dificuldades de aprendizagem, autismo e depressão. 

As evidências são de tal forma consistentes, que a neuroeducação propõe um novo modelo educativo. Adquirir uma grande quantidade de conhecimentos, como aquilo que se pretende nos currículos vigentes, não deveria ser uma prioridade quando a tecnologia permite o acesso à informação em segundos. O primordial, nesta altura, é aprender a utilizar esses conhecimentos e os recursos de que dispomos. Aliás, o modelo expositivo ainda utilizado na esmagadora maioria das escolas tem vindo a ser alvo de muitas críticas, pois fomenta a passividade dos estudantes, que parecem apenas depósitos de informação. Daqui resulta desinteresse e desatenção, quadro que, em regra, é sinónimo de aproveitamento escolar deficitário. E como tudo está relacionado, a autoestima ressente-se e começam os problemas emocionais. Na verdade, as principais causas de dificuldades escolares são fatores externos aos estudantes, ou seja, não orgânicos, com destaque para inadequação pedagógica e baixa auto-estima.

As consequências da pandemia de COVID-19, em particular a obrigatoriedade de confinamento, operaram mudanças imediatas ao nível da educação, que se viu obrigada a procurar soluções criativas para que o ano letivo pudesse continuar. Milhares de pais, número do qual faço parte, que defendem a necessidade de alterações de fundo no sistema educativo português, tiveram esperança de que este fosse um momento de viragem e o início de uma nova era na educação. Contudo, as medidas anunciadas pelo Governo mostram um caminho idêntico ao anterior, acrescentando, apenas, a componente digital.
Os modelos de educação do norte da Europa, vistos como referência em todo o mundo, há muito que incluíram os jogos como parte integrante do ensino, sejam eles eletrónicos ou não. O jogo é considerado um auxiliar educativo, uma ferramenta de trabalho. É uma atividade que, independentemente da satisfação que traz associada, contém objetivos, pelo que implica esforço, trabalho, disciplina ou respeito pelos outros jogadores. Mas, mais importante ainda, mostra, na prática, que o conhecimento é muito além da passividade de aceitar o que um professor debita. Os jogos têm regras, exercitam a liberdade de poder não as respeitar, evidenciam as consequências para os infratores, permitem ganhar, ensinam a perder, treinam a resiliência para voltar a tentar e não desistir.
Não é espantoso conseguir tudo isto em alguns minutos de divertimento?
Aproveite as férias. Construa memórias felizes e potencie o desenvolvimento dos seus filhos.

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